sexta-feira, 17 de abril de 2009

O Cão Determinado

Um dia destes, repousava em meu carro numa bela manhã quando, vi um cachorro de porte médio cruzar a esquina e vir em minha direção, mas ele não vinha à mim propriamente dito, fazia seu trajeto de forma firme com suas patinhas descalçadas num chão quente percorrido em seus passos pequeninos. O olhar vagava em tudo ao seu redor, seu focinho roçava as moites e arvores, mas sua mente estava longe, em algo fixo, não sei dizer como, mas eu sabia disso.
Não haviam preocupações, traumas, medos, como que se vivesse num mundo não habitado por humanos, um mundo onde não fora cultivado para luxo de alguma madame, visto que era de uma boa raça, não me pergunte nomes, um mundo onde não fora cuspido de um lar por talvez não mais satisfazer o prazer equacionado pelo seu custo, um mundo que pode atropelá-lo a qualquer esquina e tirar-lhe a determinação do olhar, tirar-lhe toda uma história que não parece vivida neste planeta.
Talvez a incrivel compreensão nos faça mais diferentes do que possa explicar as analises anatomicas, talvez seu corpo seja mera extensão de uma mente presa num mundo que carros não possa afetar, e se perde-lo não alterará muito o rumo das coisas. Se perde-lo, para este mundo não mudaria o rumo das coisas! Incrivel como lhe é empregado na mente que CADA inidivuo possui um papel FUNDAMENTAL no mundo, mas ao mesmo tempo que lhe ensina que és importante quando filhote, a adolescencia faz por compreendermos o quão inofensivo há de nos tornarmos, ou que na verdade, sempre fomos indiferentes! Ao menos é o que parecem fazer questão de nos explicarem. Mas quem? Quem há de querer escarrar na cara do cão que sua existencia não é pertinente nem para sua espécie? Talvez a Indiferença há de ser o pior inimigo dos seres! A trocabilidade de relações faça isso? não necessariamente, é comum em animais variados, a amplitude de reprodução de um macho para varias fêmeas, e nem por isso há indiferença.
O cão está se distanciando, e pelo retrovisor admiro seu corpinho redondinho agitar-se no impacto de suas patinhas com o chão quente de abril, ele olha os portões, mas sem parecer ter vindo de um desses, sem desejar entrar novamente, apenas caminhando, sem fome, sem medo dos outros seres. Agora atravessa a rua, e sua imagem distante perde-se em minha miopia, mas não ouço buzinas nem freiadas, deve estar sendo bem sucedido. Coloco os óculos e posso ve-lo agitar-se a uma boa distancia, e ainda observa as coisas, sem perder seu rumo, se é que ele está neste mundo, o que mais há de admirar-me é a sua determinação não impedi-lo de seguir livre, seja de tudo e todos, pessoas e temores, fome e sede, não que não as sinta, mas naquele momento não, e seu objetivo me parecia muito mais forte que o mero conforto de um lar, ou a saciação e sobrevivência, o modo que andava e observava, me fazia crer que ele haveria de ser fundamental para a existencia de tudo, que sua vida era maior que o pequeno corpinho que me era visivel e que seu objetivo não há de ser compreendido nem limitado à minhas palavras.